Drummond já dizia:

“O que se passa na cama

é segredo de quem ama”

Às vezes, por ser segredo, por ser tão bom, por deixar ser, torna-se onírico.

É como Drummond mesmo completava:

“O corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana (…)”.

O conto de hoje é sobre os momentos raros em que atingimos a eternidade e chegamos tão perto do Universo que quase podemos tocar as estrelas.

Nirvana

Pra ler ouvindo: Breathe | Pink Floyd

Ele baixou a luz do único abajur que iluminava a sala, deixando o ambiente soturno. Ela dançou sozinha, na frente dele. Fechou os olhos e deixou a melodia arrastada entrar pelo seu corpo. Embalar suas pernas e braços, ainda cobertos com o vestido de tecido fino.

Luz e sombra.

Dançavam com ela. Dentro e fora. Uma só matéria.

O tempo sumia a cada nova frase da canção que tocava ao fundo. Baixa, sexy, irresistível.

Sentia-se eterna.

As mãos dele, por trás, começaram a desamarrar o laço que prendia o vestido ao seu corpo e nem assim ela voltou a sentir-se terrena. Uma onda subiu sua espinha enquanto o vestido escorria até o chão. Seus corpos se uniram. Costas e tórax. De um lado pro outro.

E a música.

“Breathe, breathe in the air… Don’t be afraid to care”

Ele colocou as mãos em seus seios nus. E ela ofereceu o pescoço para que ele beijasse.

Abriu os olhos e viu estrelas no teto branco. O Universo tornava-se possível, do tamanho exato do que tomara minutos antes.

Desceu a mão dele em direção a sua cintura e deixou que ele descobrisse o resto do caminho.

“Run, rabbit, run… Dig that hole, forget the sun”

Viu flores azuis nascerem sob seus pés e pontos de luz vermelha flutuar por todo o ambiente. Virou-se para ele. Sorriram entre espasmos de prazer e sensuais acordes de guitarra.

“For long you live and high you fly… But only if you ride the tide”

Abraçaram-se nus. Bocas exploradoras, mãos desbravadoras.

Por

cada

canto

de seus corpos.

“And balanced on the biggest wave… You race towards an early grave “

Poderiam morrer. Poderiam deixar de existir bem naquele segundo.

O Nirvana eram eles. Aquela sala.

E a música.

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ju1.jpgJuliana Borel é aspirante a escritora e poeta. Pra ganhar dinheiro e pagar as contas é jornalista a maior parte da semana. Pra se inspirar gosta de ouvir Guns, trilhas sonoras e esbarrar por aí em pessoas interessantes. Seu blog procurasepoesia.blogspot.com.br é praticamente seu DNA.

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