Todo mundo já teve que esquecer alguém. Limpar, do corpo e da memória, uma paixão que não quis ficar é, talvez, uma das faxinas mais difíceis de fazer.

O texto de hoje é pra quem já teve que limpar a casa algumas vezes.

A falta

Andei pelos cantos. Na calçada, andei perto dos prédios, longe das vias. No trabalho, fiquei calada quase o tempo todo. Naquela festa, sábado à noite, não dancei. Fiquei escondida, na parte mais escura da boate, com um copo de energético na mão. No almoço de domingo fiz jejum. Em casa, apaguei a luz, fechei a porta do quarto, cerrei as cortinas.

De tudo o que eu te dei, você levou a única coisa que eu queria pra mim.

Pendurei a alma no armário, ao lado dos casacos. Guardei o coração numa caixa de sapato, perto dos álbuns de fotografias. Coloquei na estante as promessas, junto aos livros de poesia. Os planos… Esses tive que jogar fora. Não havia espaço para eles.

Com esforço, fiz faxina na casa. Aspirei as expectativas, passei um pano nos sonhos, varri as possibilidades. Coloquei na estante mais alta da despensa, as lembranças encaixotadas. Lavei os espelhos, esfreguei as paredes, poli o fogão. Quis encerar o chão e limpar as janelas, mas… Estava exausta. Cansa o corpo expurgar os vestígios de ausência, encher de vazio o próprio vazio.

De tudo o que você me deu, restou apenas o que não ficou.

Pendurei a alma no armário

ju.jpgJuliana Borel é aspirante a escritora e poeta. Pra ganhar dinheiro e pagar as contas é jornalista a maior parte da semana. Pra se inspirar gosta de ouvir Guns, trilhas sonoras e esbarrar por aí em pessoas interessantes. Seu blog procurasepoesia.blogspot.com.br é praticamente seu DNA.

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