Pois é, a vida não é só de acertos.

Eu sou uma pessoa que planeja tudo, odeio coisas em cima da hora, mudanças de planos sem tempo para ajustes, reuniões marcadas para o mesmo dia. Achei que a Inglaterra seria o lugar perfeito para mim, povo organizado, se preocupa com hora, não se atrasa…

Bom, não que a Inglaterra não seja para mim, mas as coisas não fluíram exatamente como eu esperava nessas primeiras semanas.

Vamos começar com a minha chegada no apartamento. Cheguei na data que marquei com a administração, eles me deram a chave e um formulário de inspeção para preencher. E lá fui eu testar tudo dentro da casa, várias coisas com pequenos defeitos e precisando de ajustes. E o mais impressionante, as paredes não foram pintadas. Quando eu questionei me disseram: se você acha que estão sujas, reclama que vão pintar no Natal. Só que no Natal minhas coisas toooodas estarão aqui, podiam ter feito isso antes que eu chegasse, né? Respira fundo, preenche o enorme questionário com mil observações e segue em frente, então.

Primeira semana de faculdade, várias palestras e eventos para alunos internacionais. Não fui a quase nenhuma, porque são mais destinadas aos adolescentes saindo de casa pela primeira vez, o que não é o meu caso, né? Então aproveitei a semana de folga e fui para Londres.

Segunda semana, eles pedem que eu esteja presente na faculdade no DOMINGO! Achei super estranho, mas ok, eles estavam fazendo alguns eventos destinados aos novos alunos e suas famílias no fim de semana, então teoricamente, todos estaríamos no campus no domingo. Eu estava em Londres, né? Aí pensei “pego um trem e rapidinho estou lá”.

Vamos ao horário desse compromisso, que eles chamam de registro no curso. Domingo, 9h. Respira fundo e olha de novo. Ué, mudaram? Sim, mudaram, agora é 11h! Ufa! Posso voltar com calma de Londres.

Só que o primeiro trem no domingo sai de Londres às 9h e demora duas horas para chegar, quando em dia de semana leva uma hora apenas e começa a circular às 6h.

Arruma carona, acorda cedo, pega estrada, chuva torrencial, chega no apê, deixa mala, corre para a universidade, entra na fila e… “lady, you should first check your visa at the other building”.

Ok, eu tinha que ter feito o “visa check” (checagem do meu visto), o que eu tentei durante a semana, mas disseram que seria apenas no fim de semana, então eu deixei quieto porque estaria na universidade no fim de semana mesmo, não é? E eu realmente não sabia que uma coisa era vinculada à outra, quer dizer, o registro e o visa check.

Fui eu para o tal do outro prédio. Chego lá, fila. Respira fundo.

A fila era só para falar com a atendente que dava informação, não era para resolver nada. A atendente, quando chegou minha vez, meia hora depois, disse “já acabaram as senhas hoje, você devia ter vindo mais cedo. Volta amanhã, mas chega cedinho, tipo 7h, porque tem muita fila!”.

Sério?

Me fizeram correr, pegar chuva, pedir carona para chegar às 11h em ponto na faculdade, para me dizerem “volta amanhã??????”.

Eu só conseguia gritar internamente: IGUAL BRASILLLLLL.

Respira fundo e conta até 100.

Bom, já estava na cidade mesmo, fui resolver umas coisas, comprinhas e tal, mas a sensação de “eu podia ter dormido até mais tarde, saído de Londres com calma e resolvido tudo na segunda” não saiu de mim.

Segunda, 7:15 da manhã voltei lá, recebi a senha de número 20. Ou seja, povo madrugou na fila do visa. Eu consegui ser atendida às 9:25, mais de duas horas depois e saí de lá com uma carteira de estudante provisória, enquanto os estudantes de UK já tinham a carteira permanente.

Mas tudo bem, respira fundo de novo.

Fui pegar essa carteira alguns dias depois e reparei uma coisa, ali dizia “Year 4”. Year 4 na verdade é quem está no primeiro ano do mestrado, eu não; eu estou no segundo ano da graduação.

Então vamos lá, né?

Volto para a recepção principal e uma atendente gentilmente me diz que eu tenho que ir para o outro prédio onde fica a administração do meu curso. Chego lá e outra funcionária muito gentil disse que era fácil, ela reimprimiria o cartão para mim. Mas peraí, não é uma questão de impressão de cartão. Será que eu fui matriculada no curso certo? Ela pediu um tempo, fechou a porta, me deixou do lado de fora e sumiu.

Dez minutos depois ela volta e diz: Você está no primeiro ano da graduação.

O quê????????

Quase tive um ataque do coração! Imagina, voltar pro início do curso de novo, fazer aqueles mil desenhos na rua de novo, passar pelo básico de desenho técnico de novo, mesmo depois de ter passado quase 5 anos estudando Arquitetura na UFRJ em tempo integral. NAAAAOOOO!!!

Meu desespero foi visível, mas felizmente o fato de ser em inglês segurou minha língua para eu não falar bobagem naquela hora, porque claramente as palavras me faltaram.

Entre tremer e tentar achar as palavras em inglês, ela perguntou se eu tinha algum documento que comprovava que eu era realmente do segundo ano. Por sorte eu tenho tudo organizado na nuvem, então acessei do meu celular minha carta de oferta que dizia “Year 2” (nessa hora eu comecei a duvidar de que eu tinha lido certo a carta há um ano atrás) e enviei ali mesmo do hall um e-mail para ela com o comprovante.

Foi então que ela disse que precisava fazer contato com o pessoal do departamento de Admissões Internacionais sobre isso, mas aparentemente era horário de almoço, não tinha ninguém por lá, para eu voltar no dia seguinte.

Eu agradeci, saí da sala, sentei no banquinho no hall e minha cabeça girava.

Eu não tenho estrutura para voltar a estudar do zero. Indo para o ano 2 já foi andar para trás para mim, já são tantos anos estudando, preciso desse diploma logo… baixou sobre mim um nível de frustração máster que as lágrimas escorreram.

Isso era total diferente do que eu estava esperando. Na UFRJ se esse tipo de coisa acontecesse eu falaria “ok, normal”, mas na Inglaterra?!

Respirei fundo, saí enxugando as lágrimas, comi um chocolate, comprei umas coisas para casa e fui malhar.

Com a cabeça fria, comecei a procurar os contatos de todo mundo que poderia ter influência sobre o assunto. Admissões Internacionais, administração do curso, informática. Enviei um monte de e-mail e aparentemente eles perceberam o erro, consertaram o meu registro e meus horários devem ser atualizados em breve. Oremos!

Pois é, isso tudo aconteceu, o que não significa que eu esteja arrependida ou que não esteja bem. Poderia ter acontecido em qualquer lugar do mundo que seria frustrante. Mas eu queria compartilhar essa experiência porque, primeiro, todo mundo sabe que morar fora não são flores o tempo todo e, segundo, porque eu queria compartilhar a minha surpresa de encontrar esses pepinos para resolver em um país tido como certinho, especialmente porque eu planejei tudo e fiz tudo que me foi solicitado fazer sem atrasos ou faltas.

E agora? Vamos respirar fundo de novo e ver o que as próximas semanas me reservam. Torçam por mim!

bjk

Lanna.London
Author

Lanna Schmitz Em algum lugar da faixa dos 30, escorpiana, viajante, carente e eterna mutante.

1 Comment

  1. Amiga, certeza que vai dar certo! Fique calma e corra atrás de quem possa te ajudar. Estar em outro país é muito desafiador e todos sabemos que não são flores o tempo todo. As coisas vão se ajeitar e vc vai conseguir.

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